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26 abril 2011

Renascimento

pesadelos

  Silenciado pela inquietação dos meus devaneios, afogo-me no doce abismo do cálice. Transbordando-me de calafrios, arrepios, sexo.
  Da sombra do meu travesseiro surge um homem, nu, de asas negras, ferindo a minha paz. Tremo, grito e corro, mas estou perdido em minha cama. O homem me abraça com suas mãos frias e rígidas, navegando-as aos meus lábios. Numa blandícia maligna, espreme o meu ar, sinto conforto, um terrível conforto. Um orgasmo de desespero.
  Acordo como se estivesse renascido, infelizmente, em mais um pesadelo: meu quarto está repleto de demônios, todos me deblaterando com gargalhadas e grunhidas. Meu terror está acordado. Minha alma pútrida. Meu espírito corrompido. Meu coração barateado.
  Prostrei-me,

Pr Lima

02 julho 2010

Defesa:

Procuro por um amor que não envelheça.
Por um amor que não conte datas. Que não pereça.
- meu amor é sempre pequeno, sempre crescendo.
Quero um amor em chamas ardendo
Não quero um amor que me faça dormir calmo.
Quero um amor que me faça estar acordado.
Não quero um amor conto-de-fadas.
Quero um amor vivo, vivido, real e sem explicação
Um amor não adjetivado. Em incondição
Não quero amor, quero um amado.
Não ser amado, só ser lembrado.

PR Lima

01 maio 2010

Teu Poeta, tua Alma

Todo esse teu poema, me encanta
Me adoça e me apaixona.
Me ilude, me entristece
Me machuca e me magoa

Porém até na dor que causa
Esse teu poema ousa em ser belo.
E é até sem querer, dessa felicidade
Que teima fugir de mim quando não quero.

Canto teu nome, eu clamo.
Minhas mãos não param
Rabiscam, riscam: eu te amo.

Cante lenta, como num rio se rema
Só pra mim, a tua alma
Essa alma que é um perfeito poema

PR

 

Tudo é um canto, com cheiro de alfazemas. Cante para mim mais uma vez.

24 março 2010

Dois Segundos

    Toquei-te os lábios com meus poemas, de vontade a te acariciar o coração, vesti tua alma com o meu corpo. Vaiava lenta e suave, tua dança debruçada sobre meu colo, mais, mais tu em mim. Ofertei meu tato em altar no palmo da tua língua. Perdidos, nossos braços, nossos pés e nossas mãos que nem sabiam onde estavam. Se era perdido entre tuas costas, ora se eram meus olhos que se enchiam com o teu rosto de criança lambendo um doce. Ao íntimo sublime, tu me revestiste com o teu doce, salgado, amargo, tudo de ti louvado em mim.
    Enquanto manifestava várias brisas, minha alegria sentia o teu cheiro, me embrulhando e me protegendo de toda tristeza sem explicação.
    Dentro de mim não tem outro espaço que não o teu, nem uma parte de mim te quer longe, tudo em mim seca sem ti.

PR Lima

07 dezembro 2009

Cemitério de Formigas

Olhe só a muda reza.
A reza do mundo, não a da doença.
Eles querem que deste, a dor prevaleça.
Não, não os impeça.

Os pequeninos, olhe como choram.
De fome, de desespero, de visões despidas.
Apenas a morte, em cada pressa eles montam
Sob um por um, seus corpos, suas órbitas.

-o que pretende, pobre criança?
-criar um novo mundo, minha senhora.
-o que houve com este que criaste com tanta esperança?
-afoguei-o em dilúvio, meu dilúvio, disto que nasce quando entristeço.
-e por que entristeceste?
-do barro, da costela, criei a traição, a dor e as espinhas nas rosas.
-que fim levou o velho mundo?
-transformei-o em cemitério de lástimas, enterrada, lá está, a minha angústia.
-e de que maneira irás criar o novo mundo, sofrido criador?
-ainda não sei, mas sei que desta vez levará mais que sete dias.

PR Lima

Ando sumido demais por esses tempos, e também gosto muito de todo mundo que me segue aqui no Blogger, a fim de não perder o contato com muitos, queria que me adicionassem no messenger: nishiwaki@ymail.com. Abraços.

07 novembro 2009

Dos Vera!

Com vícios, meu corpo se degenera.
Gostar de cenoura, quem me dera.
Comeria arroz com pepino, se pudera.
Mas não!
A minha pança, a cerveja pondera.
Integridade pulmonar, o meu cigarro desconsidera.
Do amor, não amado, o alimento para a minha fera.
Pra que largar o vício?
Se da vida, a lei é o cão faminto da megera?
Não! Desviver todo santo dia, pois assim,
A intensidade vivida, a minha alma gera.

14 setembro 2009

Sentido Um

Submisso na embriaguez, perdido entre o trago e a boemia da imensidão dos meus temores, carrego a tensão, o peso e as agulhadas do cansaço em minhas costas.
Coroado com espinhos, algemado com estacas: sangro a lua intangível aos olhares de quem me consola o esplendor pela palha do meu incenso.
Tracei a graça da minha paixão em um papiro rude, solando a pluma de um sonho que esvaiu dos meus sonhos, de pesadelos e mais suores criei uma fortaleza; das palavras que ruí da minha lembrança criei rezas e orações, com o infinito pregado em cada uma delas. Concordei com absurdos, blasfemei meus princípios, criei uma armadura fraca sobre o meu corpo. Meus frutos, então, acabaram por apodrecer, extorquindo da minha aura a incandescência da minha paz.
Já não creio em milagres, e meus vazios já me preenchem, hoje o que me basta é sossegar pela dormência de sete apertos de mãos.
Agora e hoje, algumas coisas já me fazem sentido.

PR

19 agosto 2009

Canto ao Vento Passageiro

Quanto às remoídas lembranças, as esqueça em qualquer corredor, jogue-as sobre quaisquer traços de lençóis quebrados, lance-as em qualquer castigo. Pois, o que quero me tornar hoje é teu fogo nos indevidos sarcófagos frios, das noites mais soturnas.
Quero ser tua sombra em desertos infinitos. Em dias de queimar os pés, ser o teu chão para acalmar os tormentos, teus cansaços. Tornar-me chuva, quando teu coração estiver seco pela amargura.
Quero em ti adormecer, e caber na palma da tua mão. Quero viver, no êxtase da essência do teu olhar, no cântico soberano da tua fragrância, me fortalecer com a tua voz.
Jus em mim, o amor que clamei ferido, rezei pecador, sonhei feito criança. Em ti encontrei, quanto como santificar de uma escuridão surda, o raio e o trovão que devastou as ruindades, o dilúvio que lavou o meu espírito. Por ti ceguei meus sentidos, para escutar somente tua respiração, e assim, me mantendo em paz.
Quero ser teu ar, se faltar.
Quero ser tua água, para saciar.
Quero me tornar teu único, para te amar.
Quero te amar.
Quero que me conceda o árbitro para me semear em ti, porque preciso renascer e colher bons frutos.

14 julho 2009

O mais belo sonho

Às margens de um pesadelo, afastei-me, forçando o despertar com o rosto sobre o travesseiro enxugando o desespero. Não eram atos, naquele sonho, eram sentidos: vários deles congestionados e bagunçados, interpolando, oscilando entre a lucidez e a loucura, mantendo-me recuado no canto da fadiga. Não era medo que me atormentava, era a sensação de mastigar cascas de ovo, como se numa bocarra, entranhasse os dentes no próprio coração desidratado pela mágoa, seco, pálido e feito de areia. Ao levantar me vejo recepcionado por um sádico silêncio forjado pelas paredes e, mais uma vez, encontrei-me ausente de qualquer amparo.
O tal sonho:
O meu mar era feito de pedras, escombros de pássaros mortos, navegava sobre um corpo almejado pelo sucinto desejo da inexistência. Afrontando os vestígios de martírios, deslizava entre larvas e moscas, zurzindo a respiração. Estreitando a visão às lentas, um estertor me causava embriaguez. Assistia, voando sobre meu cadáver, a um anjo negro de asado vermelho café, sacudindo pelo pairar um perfume ungido pelos desgraçados. Intangível pela narina, tangível pela pele: queimando a nesga dos dedos, germinando na boca sabores denso, estremecido e nauseativo, numa expectativa contundente ao qual se refere o aluir da minha sobrevivência, eu me perdia.
Não era morrer, era transformar-se.
Não era decompor, era sublimar-se.

PR

22 junho 2009

Minhas lembranças, para ti, minha honrosa vida de sofrimento.

Sei que nesses últimos dias minhas lembranças andam sonolentas demais, que a fadiga, ainda sonolenta, me faz deitar num tropeço nas minhas angústias, cuja nestas ainda me encontro afogado. Sem ajuda, sem conforto, minha rotina costurada na nesga da insuportável vontade de explodir, de me isolar do mundo inteiro.
Poderia afirmar banalidades, tais como a que digo que posso viver apenas das tuas lembranças, dos dias bons que agora sei que jamais irão voltar. Ser um museu com pernas e braços, com mãos e pensamentos, podendo migrar do frio para a calorenta solidão, podendo marcar meus passos em pontas de lápis e nas faces dos papiros. Indaga-me algo que sugira que tudo que faço é errado. É o teu maior dom, sendo ou não sano ou pelo menos ingênuo, continuo sendo uma larva, eu ainda não descobri como levantar as asas que felizmente não tenho, isso me traz a tranqüilidade que acoberta minha ansiedade, serei uma criatura desasada por quanto durar meu sofrimento, que digo, por um lado é delicioso, por outro é incompreensível. São coisas belas do amor: sofrimento, dor, martírios e boemias. Sinônimo de amar é sofrer, ou para os mais otimistas, o amor é o mais próximo sentimento do ódio.
Um pequeno risco sobre minhas idéias:
Odiar é lindo, talvez uma das mais puras ações da cardiologia humana – de onde vêm os sentimentos? Do coração ou da sensação? Do consciente ou do subconsciente? Inconsciente? De onde? Como produzir um sentimento? Queria te odiar, pelo menos quando quisesse, eu poderia voltar a te amar facilmente, mas sei que prefiro sofrer.
Nas noites em que durmo onde por várias vezes já desfrutamos do sabor um do outro, desejo te encontrar quentinho, te procuro virando de um lado para outro, na esperança de me redimir nos teus braços e me encolher no teu ombro, pacificando a minha alma de todas as inquietudes. Delirando meus lábios, desfrutar mais uma vez do sabor das infinitas cores desconhecidas por qualquer ser deste mundo, daquele oco poço de ares e perfumes, da vontade de flutuar em teus abraços, de dormir com os teus beijos. Queria por mais uma única vez, me esconder no teu peito, refletir aí que me sinto seguro de tudo, que é o meu céu dentro do meu mundinho chamado ‘Tu’. Ainda sobram prantos em lugares que tento te encontrar, nos meus dias normais, não sinto vontade de abrir meus olhos, porque enquanto os mantenho bem negros, posso ainda escutar tua voz, posso ainda enganar meu olfato e sentir a tua flor, mentir para as minhas mãos e dizer que elas estão tocando em tua pele. Teus retratos, tuas palavras e tuas vertigens ainda passeiam por mim, ainda conversam comigo, ainda me dão carinho, ainda me dizem ‘nós te amamos’, elas não me deixam dormir sozinho. Todas elas ainda estão aqui, comigo, são minha utopia.
Eu e minhas lembranças, andamos ligados de forma umbilical, ela é meu alimento, meus sais e minha sobrevivência. Sou louco por te amar dessas e de outras formas todos os dias, de me lembrar da tua presença em cada intersecção de passos. E tu, nem sabes que existo, não mais. E isso não é pior da loucura, a mais esquizofrênica das minhas idéias é a de que tudo que não existe nesse mundo é perfeito. É puro e fértil, o mais doce dos frutos. Já larguei pelos marcos dos meus passos, pequenos borrifos de minhas palavras, e rezo todos os dias para que tu as encontres e sigas até o fim, porque não me importa o tempo, não me importa a eternidade e não temo a morte, estarei te esperando por noites e dias, rareados sois ou chuvosas tardes de domingo a domingo, não temo o meu destino, estarei te esperando até o soprar da minha vela. Mesmo que jamais nos encontremos, a honra de ter sofrido por ti e não por outro, será a marca da minha vitória neste mundo, e partirei com as feridas deixadas por ti em meu peito.
De qualquer modo, meu amor, sofro porque quero, porque sofrer é belo, é amar. E amar é ser vivo. São coisas da vida. Não há o que mudar.


PR.

05 junho 2009

Crônicas: Rosa Branca


Capítulo Dois
Insônia (parte I)


Costumo dizer que a convivência com a tristeza é o ponto de partida para a sobrevivência.

Gabriela condensava suas perguntas íntimas ao redor do parque, mais se perdia enquanto via seus pensamentos enevoando sua consciência.
Bem no centro, perto do chafariz, um sorvete derretia sob o sol que machucava o piso enjoado do parque. Para quem reparava com olhos e analisava o sorvete com carência afetiva, tudo fazia sentido: a delicada e saliente forma com que a febril fome de alegria toma posse de teus medos é quase tão deliciosa quanto uma úmida penetração de um sexo. Ao despertar de uma solidão incontrolável e debruçar-se sobre um terreno desconhecido, inexplorável e inabitável, como agir? Pior que isto, como sobreviver e escapar? Como o tal, ficar num lugar onde não se podia estar, onde suporte não te é possível a tolerância, te faz um sorvete sublimando, corre o chão com suas lástimas, resseca e aos poucos vira pó. Porém, tristeza é algo que vicia, que te torna amante, tua perna e teus braços, passas a admirar-la com o tempo, logo, não desejas mais sair de seu mundo. Mesmo que encares a face de teus motivos, o inevitável suicídio não te é mais tão surpreendente.
Na noite deste mesmo dia, uma silhueta estava imóvel na porta do quarto, olhava fixamente para Gabriela, como se dissesse a ela para que a seguisse, um odor repulso tangia seu corpo. Levantou-se, atravessou a porta e seguiu aquele perfume que imitava a flagrância de Plínio, calçou seus passos no corredor adormecido – estranhamente percorria lembranças sem saturação, como em uma série de fotografias passadas rapidamente uma após a outra, pelos seus ouvidos. Aquilo tudo a assustava, e quase como um flerte, podia imaginar o que a aguardava no fim daquela trilha de perfume denso, silenciosamente Gabriela pontuou-se na porta para a cozinha. Por enquanto, ela se manteve quieta e calma, o problema mesmo foi o depois do enquanto. Esbugalhados, seus olhos secava a aparição de um ser tristonho, com uma postura cansativa e fantasmagórica, com o olhar tão soberbo e sádico quanto à daquela indesejada (ou muito desejada por alguns), mãos trêmulas e que lentamente erguia para guiar os olhos de Gabriela para algum ponto da cozinha, gerando uma intensa salivação na boca, ela sentiu sua pele desabrochando várias vezes, quando seus olhos partiram do fantasma para o canto onde ele apontava. Plínio sorriu para Gabriela.

Continua

14 maio 2009

Carência e Sabedoria

Loucura me liberta, me isenta de dor, amor e rancor. A dor me desperta, dos sonhos, dos desejos e daquele amor. O amor me tranqüiliza, faz-me ignorante e pétalas. O rancor me leva a loucura.
São circuncisões paralelas, são tudo que não existe, são tronos que me engrandece, objetivos e castelinhos, de mormaços aos trópicos de cânceres que em mim só consiste em leite franzino.
Eu me mutilo, física e psiquicamente, dando às minhas quimeras o sangue que escorre pelos meus segredos, lento, manto dos meus prantos. É êxtase para os meus fantasmas, aqueles que insistem em me lembrar de olhar para o penhasco. E desabo, caio, afundo, morro e inexisto.
Loucura me liberta, a dor me desperta, o rancor me alucina e o amor me resguarda de ser pior a cada dia.
Os dias são, pessoalmente, insuportáveis. Calo mas não saro, sopro e não vazo. Ponteiro parado, o suor dançando, reluz incidente clarão que se quer percebi despertar.
Ando, levado por um vicio: a loucura me fascina.


PR

03 maio 2009

Crônicas: Rosa Branca


Capítulo UmPlínio M.R (parte I)

Nem mesmo ele sabia por que estava pacífico naquela ocasião.

Na hora exata do suicídio tudo é sempre muito calmo, sempre muito silencioso, como se o mundo inteiro parasse para ansiar pelo teu fim, e isso se torna mais um incentivo para Lá se ir. Na expectativa de rastear um bando de causas de teus pés, muito de tudo passa a contrair em ti, ou a ti, o ar passa a te sufocar, sentes obeso com montanhas de areia seca que engoliste por há tempo, dor que se quer um vinho barato pode cauterizar, tornar-te um incenso, um ingênuo. Por hiatos, alguns arrependimentos vêm te ser amparo, ampara, mas logo após voltas a ser aquele fracasso que enjoa até mais que fragrâncias de meretriz. Em hora ao suicídio, todos os teus sentidos aguçam de tal forma que te agonizam, é uma mistura de sentimentos sísmicos em teu peito, gritas tanto que te enganas às vezes por cogitar que estás num pesadelo que não te há voz, movimento, torna-te inerte a qualquer ação que procura por qualquer reação, te sentes insuficiente, inútil, incapaz e impotente, na esperança de poder acordar suado numa cama e voltar a ser vivo. Não há como descrever em milhares de parágrafos como é o mínimo do trisco da morte.

Plínio vogava por esse mar de intuitos e prolongava ao fundo, e como tudo que havia por dentro dele estava ferido, o contato com este mar doía, o sal arrancava a casca das feridas que quase conseguiram cicatrizar com o tempo. E tudo continuava incisando, machucando.

A mesa de jantar e suas cadeiras, a pia limpa e fresca, a porta para o banheiro, o armário lotado de temperos, a geladeira e o fogão, todos muito soturnos e hipotérmicos, foram os únicos a presenciar o último instante do debater do corpo de Plínio, depois, os lentos vais e vens do seu corpo franzino, chiavam por uma corda presa na perna-manca do teto nu.

Não era de se esperar tais coisas de Plínio, porém, ele era aquele tipo de homem que nunca se podia ter suposições, nada era o que ele fazia e era previsto. E talvez por essa razão, a notícia de seu suicídio foi tão surreal, porque ele não demonstrava suspeita de depressão, se quer um sintoma que a indicasse. Sempre sorrindo e alegre, Plínio demonstrava felicidade e era o intuito de muitos para a diversão. Sempre rodeado de amigos e de garotas, boa reputação na faculdade de direito e financeiramente sustentável, além do que ganhava de seu pai, ele também tinha lucro trabalhando como auxiliar administrativo numa pequena empresa, e até nela era muito querido por todos, morava em seu próprio apartamento e mantinha um compromisso de quase um ano.

Naquele dia, o do seu suicídio, todos queriam mais do que Plínio queria a morte, saber qual foi o motivo de sua atitude, perguntavam por carta de despedida, por mensagens deixadas em emails ou por alguém que soubesse de algo sobre o incidente. Nada, para todos que faziam a mesma pergunta havia um que também fazia o mesmo questionamento, até mesmo os pais de Plínio, que era filho único, estavam dentre estes carentes de respostas. Foi então que apelaram para a única pessoa que mais convivia com Plínio, a quem ele confiava a vida e etc.

Gabriela acoplou a chave na fechadura da porta do apartamento de Plínio, segurando desastradamente todo o embrulho e sacola da padaria por onde passou – neste dia havia marcado com ele para tomar café juntos. Chamou três vezes por Plínio até que desistiu, e foi deixando os pães, bolos, doces na mesa de centro da sala e passeou até a cozinha para esquentar a água do café: Gabriela adormeceu ao ver o Plínio pendurado numa corda, frio, calmo, carente e morto.
Não há nada que explique e convença o que aconteceu com Plínio. Apesar de entender a tristeza de todos, Gabriela preferiu guardar para si o que lhe foi deixado, não mostrou para ninguém, pois leu e entendeu bem as letras em vermelho-negrito no envelope da carta: “APENAS PARA GABRIELA”. Ela só sabia que fazia parte dos motivos. Isso a fazia impotente, e chorava por culpa, “não pude fazer nada para evitar isso!”...

Uma pergunta central: por que Plínio se matou?


Continua.

19 abril 2009

Dois em um

resolvi publicar duas postagens de uma só vez. :) já que eu sei que ninguém vai fazer questão de ler tanto. resolvi postar duas em uma, para facilitar a leitura de quem lê e se dá o trabalho de comentar, e para estes, obrigado pela paciência e pela fidelidade. :*
Em Paralelo

Como se diz na matemática, dois segmentos em paralelo jamais se encontram. As mentes humanas são vários segmentos em paralelo.

[argumento um] – às 00h12min AM (quinta-feira, 16 de abril)
Eu acredito numa vida corroída, onde planos são apenas cartas Tarot viradas sobre uma mesa: podem ou não vir a tona. Onde seguir sempre seus próprios princípios, somente, é acreditar que a terra ainda é plana: sem ter uma mente aberta, você acaba pensando que caiu num abismo ao desrespeitar-los. A vida não é só uma, são várias, logo, também, são várias doutrinas e várias regras, acreditar que elas sempre vão reagir de acordo com as suas lógicas e girar sempre em torno de uma única crença é ignorância, é querer ser só – sempre uma regra vai contrariar a outra, sempre um princípio vai anular uma ordem, porque não aceitar várias idéias e deixar por vezes a própria para entender outro preceito? É preciso sempre algo Novo para girar.

[argumento dois] – às 04h54min AM
Em algumas espécies que ocorre entre os anfíbios, existem os machos que podem mudar de sexo durante todo o seu ciclo vital para manter a geração de sua espécie.
Antes de receber quaisquer classificações, todo corpo constituído de cromossomos, células e outras coisas mais, é descendente de uma só origem. Então o que pode garantir que tudo que vemos sobre a terra e precocemente determinamos como normais ou anormais, de fato é o que julgamos? Não existem características fixas para algo ser classificado como anormal ou normal. Normal é contrariar, sobre tudo, normal é ser anormal. Quem vive de acordo com a sua anormalidade, loucura pode-se dizer, e usufrui do respeito pela loucura dos outros é quem é vivo de verdade. Loucura é um dom que para poucos nessa vida foi concebido. São coisas que devem ser priorizadas na vida. Além do mais, o que importa na vida mesmo é a procriação, pois o que difere uma espécie de outra, é o que ela gera: alegria, amor, rancor, etc. É só o que vai importar no final.

[argumento três] – às 13h27min PM
Em relação ao amor, do qual não me canso em discursar, tomei em conta de que acredito nas formas em que ele pode se manifestar, tais como no ardor do ódio, no doce enjoativo do rancor, na clareira decepção e nos sons da solidão. Ao longo de alguns meses que se resumem em alguns instantes, aprendi que o amor verdadeiro nunca se esgota, apenas insensibiliza. Pode ser despertado com o murmuro de um grilo.

[argumento quatro] – às 3h19min PM (sexta-feira, 18 de abril)
Sobre uma pequena felicidade que inchou nos meus lábios.
Porque sempre esta ‘felicidade’ resolve despertar em mim logo quando estou à beira de me adaptar com um estado insuficiente?
É ridículo, mas sou como uma mulher gorda: come tudo que vê pela frente apenas com o impulso de satisfazer a falta de algo que ela desconhece, ou se é apenas uma compulsão, já eu, inconscientemente procuro algo que satisfaça a minha necessidade de felicidade diária. A mulher gorda só vai emagrecer quando descobrir o que pode dar tanto prazer em si quanto comer, e se caso exista a falta de algo, o que poderia recompensar essa carência. Quanto a mim, acho que só vou aprender a ter controle quando, assim como a gorda, ter consciência do quanto o excesso de felicidade na minha vida causa conflitos emocionais. Eu já sou feliz, não preciso de mais felicidade na minha vida. Assim como tanta coisa na vida a felicidade em excesso também pode ser nociva, ela pode anestesiar outros sentidos que nos são de extrema importância.
Felicidade e tristeza, ambas são essenciais para a vida: uma te dar prazer e conforto, a outra, te desperta e te trás de volta ao chão.

PR Lima


Saudades

Ah que saudades. Que saudades eu sinto de amar, que saudade sinto de me comportar feito criança numa cama, e como sinto falta de ser de alguém, saudade de sentir saudades. Como queria ser paquerado e como queria te encantar outra vez, meu Deus, como tudo aquilo era tão lindo.
E os intensos suspiros no dia dos namorados, aquilo tudo era muito puro e saudável, como era lindo te ver sorrindo e acompanhar a tua felicidade. Como era maravilhoso te fazer apaixonado e eu ser a causa dessa paixão, como era gostoso aquele cheirinho do teu cabelo, a maciez da tua pele quando tu deitavas em mim. São tantas coisas que juntos realizamos. São tantas recordações que de nossos sentimentos foram gerados.
Quando me apaixonei pela primeira vez por ti, foi quando senti uma explosão de bilhares lírios, jasmins, lavandas e margaridas florescendo dentro de mim tudo ao mesmo tempo, quando escutei o bater de asas de um beija-flor, bem lento, bem calmo e um som mudo que só os olhos podiam escutar. Como era incrível te desejar, como era uma conquista da paz te amar, contigo eu era feliz, eu era radiante, eu era bonito e inteligente, eu era grande.
Como era bom ser inocente, porque sim, somos inocentes indagações quando estamos apaixonados. Tua respiração ainda corre dentro de mim, meu amor ainda desperta quando te encontro. Ainda me torno um bobo quando escuto a tua voz. Tu ainda és o meu maior amor do mundo.
Te amo como se nunca tivesse amado antes e tivesse sede disso, sou viciado e louco por ti.

PR Lima

31 março 2009

Preâmbulo de um Suicídio


Capítulo UmO Prefácio do Preâmbulo

Em uma cadeira de ferro de aparente ferrugem que dava sede, Paulo ressoou algumas lágrimas, lágrimas que ousou pensar no passado que jamais tornaria a plantar em seu rosto, aquela mesma contração nos lábios, o mesmo tremer das bochechas e as mesmas dores no queixo do antes-de-chorar. Clamou várias vezes por ajuda, mas bem mais parecia gritar em um sonho onde ninguém entendia a sua língua e nem menos tinha voz. Gritava dentro de si de uma forma a sufocar o seu pulmão, como quando se tenta pronunciar alguma palavra e a ronquidão impede a vibração das cordas vocais e a passagem de ar. O que estava prestes a ocorrer era magnífico. Paulo recordava da experiência nas fracassadas tentativas de suicídio no passado, GN havia concebido o valor que ele necessitava tanto em sentir, havia lhe dado a clemência do bem estar em viver, mas nos últimos trinta e alguns dias, o mesmo que lhe ofertou o sabor pela vida, tomou de suas mãos o que tanto valorizava e acredita ser pela eternidade. Freqüentemente Paulo meditava sem intenção sobre os planos que construiu nos berços de GN, sobre o castelo que com cuidado arquitetou nas mãos dele, almejos que no decorrer da sua relação com o mesmo tornavam-se maiores e engordavam alimentados com as felicitações que GN lhe causava. E quando pensou estar correndo na direção certa, perdeu o equilíbrio tropeçando num galho de fissura esplendida chamada Decepção. Tudo havia desmoronado em sua frente, e um pouco mais para baixo, todo seu chão tornou-se sal e despertou a dor das incisões nos pés que, de tanto andar em nuvens, havia esquecido que ainda estavam ali. Toda aquela tristeza, mágoa e ódio que agora era a prova crua de um temor que o assombrava há algumas temporadas, aquele passado de boemias e cigarros, apenas havia adormecido. E agora, estava de volta, presente nos seus pequenos olhinhos tristes e avermelhados para torná-lo outra vez aquele garoto que fechou as janelas, trancou as portas e partiu seus pulsos em dois. Paulo dali a pouco, estaria se lançando em um “O” de um fio de mouse velho amarrado num pedaço de madeira que sustentava o telhado de sua casa. Paulo, dali a pouco, estria frio e finalmente pararia de chorar – o que ele odiava por sempre logo após causar dor de cabeça insuportável.

28 março 2009

Preâmbulo de um Suicídio

Prefácio

Houve três ligações que Paulo não quis atender. Houve restos de biscoitos e meio copo de leite que deixou sobre a mesa do computador, num quarto empoeirado. Respondeu seus recados num site de relacionamentos, atualizou sua página na internet. Quietou por alguns instantes.
Houve duas ligações seguintes que Paulo não pôde atender. Restou ainda o leite e o biscoito sobre a mesa. Paulo não responderia mais seus recados, nunca mais atualizaria a sua página na internet. Restou também o seu corpo frio e os últimos suspiros que ainda dançavam pelo ar do seu quarto. O cigarro morreu quando saltou das mãos de Paulo e mergulhou em seu sangue, que rastejava decorando o piso, deixando um lindo efeito que espelhava o teto.
Houve um amor que Paulo não quis perder. Antes de toda aquela febre, desligou uma ligação com GN, não houve carta de despedida, não houve ameaças e muito menos força, que tanto tinha quando junto a ele. Paulo tremia a sua voz ao telefone, falava absurdos, barbaridades em tons de desespero e sarcasticamente ria de suas mágoas causadas. Suas tristezas disseminavam pelo seu corpo, deixando-o fraco, sem força até mesmo para se manter em pé ao lado do gancho do telefone. Mais tarde, a prática do pecado. Bastou uma faca de cozinha e uma garganta.

Capítulo Um

Algum dia continua, se o autor sobreviver.


Que minhas palavras diluam nos teus olhos lentamente. Meças o meu tamanho quando eu estiver ao teu lado, se assustarás com a minha grandeza.

26 março 2009

Cartas a GN

Houve a fuga de palavras, talvez eu as tenha engolido a seco, quem sabe te entreguei e as memórias me escaparam.

Querido amor,
Hoje reacendeu dentro de mim aquela rosa. Aquela rosa estranha sem espinhos, tão estranha que nem cor tinha. Apenas flameja como cigana em êxtase sublime, neutra e serena. Uma rosa intangível, de perfume irreconhecível e de beleza inexplicável.
Hoje soprou em minha alma, aquele vento puro, parido do alto dos picos dos Alpes. Aquele vento que refrescou pinheiros, correu rios, vento que sarou meus prantos. Sarou meus olhos.
Hoje aquele mesmo céu sorriu para mim. Primeiro azul, depois anil, mais tarde vermelho café e em fim as estrelas. Aquelas mesmas estrelas do meu primeiro beijo, daqueles abraços, daquele conforto que eram teus braços.
Hoje as árvores dançaram pra mim.
Hoje meu corpo inteiro árduo, tornou leve e suportável.
Hoje descobri aromas. Hoje desvendei as cores. Hoje cantei, mudo, num tímido timbre de pensar.
Hoje ressoei em meus ouvidos o seu pequeno “eu te amo”
Hoje envelheci várias vezes de tanto sorrir.

Com carinho, PR.

Nunca te faltei com paixão e nem menos amor, que importâncias tinham meus defeitos?


(Continuação da última carta)
Não sou requisitado pelos versos que sopro. Sou apenas um rueiro que clama por um olhar teu, que louva a tua beleza. Que ressuscita as serenatas do Romantismo.
Sou um rústico jardim que surgiu alimentado pelo teu sorriso. Que falece quando ouve o teu pranto. E felicita com o teu perfume, que fulmina as minhas tristezas.
Tu és essa chama que inflama pelos meus poros, tu és esse rio que purifica a minha alma. És toda beleza que humilha os mais raros fenômenos naturais desse chão que piso, chão de um mundo que desenhei em minhas saudades, para que pudesse te encontrar enquanto sofria com a tua ausência – neste meu mundo tudo é tão real quanto esta paixão que sinto por ti. Neste meu mundo as rosas são de todas as cores, as nuvens são imensas e bem contrastadas, há lagoas e montanhas, há cânticos de pássaros e brisas que penteiam os campos. Neste meu mundo tu permaneces do meu lado, abraçados, sempre cochilamos sob a sombra de um pessegueiro que nos cobre com suas pétalas.
Te amo demais GN.

As palavras são o que me restaram, e elas continuam se esvaindo de minhas mãos. Fui um anjo para ti. Fui o melhor que consegui ser. Eis aí a ventura das minhas frases, que mais esta vez, dedico incondicional, plena e fielmente a ti. Sempre vou te amar. Espero que depois que perder as minhas asas eu descubra que a minha queda foi apenas um pesadelo.

24 março 2009

A Dita cuja, Felicidade

Antes de tudo, à GN: Foi difícil ficar sem escutar a tua voz por hoje, e não consigo parar de me arrepender em não ter deixado a minha mão escapar até o telefone, em não ter deixado a minha voz manifestar e te dizer que eu te... – São pequenos parágrafos de um grande amor que dedico a ti, tudo que sou capaz de criar em belas palavras é por causa tua.

Penso com freqüência, desta vez, sobre felicidade, não mais sobre um sentimento estranho que teimo pronunciar em ser amor. Existem em mim vários conceitos e definições para a felicidade, uma delas é esta que irei resumir no próximo parágrafo.
Respostas não me faltam à pergunta: “felicidade?”. Uma delas diz que a felicidade é tudo que posso sentir, seja do amor à alegria – não digo "do amor ao ódio" porque sinceramente vejo poucas, ou nem uma, diferença entre eles. Existe um tiquinho de felicidade em tudo que eu sinto durante um dia, seja alegria, tristeza, solidão, angustia, etc. Veja bem, pense no quanto seria doloroso conseguir sentir nada, garanto que, por exemplo, se você não tivesse olfato e por uma sorte, do fator destino, conseguisse um tratamento que curaria a sua doença, após a alta o primeiro odor que sentiria depois de tanto tempo sem o olfato, seria um perfume maravilhoso para você. Serve também de exemplo aquela velha lenda da humanidade sendo atacada por uma estranha epidemia de cegueira branca, no final, todos alimentavam seus olhos com as ruas rujas e um “o que aconteceu aqui?” felizes da vida. Costumo dizer que me imaginar sem sentidos me faz sentir uma dormência seca e agonizante, um silêncio que, presumo eu, seria doloroso demais. Pode ser contraditória, mas ser feliz é ter em suas mãos todos os seus motivos que alimentam a tristeza e a raiva (depressão na maioria das vezes) e saber manipular-la. “Por que se fala tanto sobre a felicidade?”, “por que se têm tantas explicações para ela?”, talvez para cada um dos casos anteriores, a resposta seria: “porque para se viver a base um alimento, precisa primeiro analisar e estudar o mesmo e suas respectivas reações no seu organismo, e assim, passar a incluir-lo na sua dieta para uma vida saudável, é o mesmo com a felicidade”. Acredito que apesar dos meus problemas, eu sou feliz. Porque eu tenho uma cama e uma casa onde posso dormir e lá se vai o resto do sermão de como você tem que dar valor às coisas... Não se importe tanto com as regras da maioria, apenas corra atrás e se canse de conquistar seus objetivos, oras! É do troço chamado Ser Humano ser materialista, no mínimo que seja, ou pelo menos não enxergar os seus próprios pés sobre um chão frio e duro, muitas vezes por fraqueza. Quem sabe se é isso que impedem muitos a enxergarem melhor a própria vida e, o quanto tem coisas boas acontecendo por de trás das imensas muralhas que os problemas se tornam? Enfim, eu sou feliz, tecnicamente e teoricamente falando. Ou seja, sou feliz, mas não estou feliz. Que ironia.
Já se perguntaram por que aquelas crianças sujas de barro, barrigudas, magricelas e com aquele olhar de desespero, sabem rir com mais sinceridade e facilidade que alguém numa situação melhor (você)? Eu respondo, porque elas não sabem o que é materialismo, porque elas não possuem algum objeto valioso para exercer o materialismo e, porque elas não sabem que naquele shopping está à venda um colar de diamante para babar por cobiça. No máximo o que elas tem de mais precioso é a própria vida, mas também não se preocupam tanto com isso, por isso elas vivem tão pouco, mas morrem depois de tanto correrem e aproveitarem bastante a bolinha murcha e socada naquele terreno baldio cheio de poças de lamas de bueiro, depois de brincar tantas vezes com a mesma bonequinha careca, impossível de distinguir se é boneca ou boneco de tão surrado. Elas morrem de tanto brincar e gargalhar, crianças sempre são perfeitos exemplos de como ser feliz, não acham?

Morra de tanto viver e amar, e isso será ter sido feliz na única vida que lhe foi ofertado.

PR Lima

30 janeiro 2009

A Garota Feliz


Fez-se um lindo dia naquela manhã apesar das notícias ecoando feito fumaça pela cozinha, anunciando mortes, guerras, misérias e outras coisas mais depreciativas, fez-se um lindo dia naquela manhã, exclusivamente aquela manhã. Nem mesmo o tempo cozido em nuvens escapou de ser admirado. Aquela manhã era diferente de todas as que já haviam despertado. O lanche da manhã nunca foi tão delicioso quanto o daquela manhã, mesmo sendo apenas um copo de leite, diluído em água para render mais, e um pão adormecido, e mesmo ter sobrado nada depois de tê-lo dividido com os seus irmãos. Nada estragaria aquele dia. Fez-se uma linda manhã.
A garota sentou-se diante a um espelho, um pedaço de espelho, e penteou suas ressequidas palhas douradas. A falta de um batom vermelho, somente esta cor a faria sentir-se bela, não a impediu de furar a ponta de um de seus miúdos dedos carne-osso para extrair uma difícil gota de sangue para colorir os seus lábios, quase o mesmo tom de uma folha de papel de desenhar amassado, branquinhos e mortinhos. Limpou os seus pés para estarem dignamente apresentáveis para o encontro com o salto alto velho de sua avó, tão velho que mais parecia papelão sobre dois pedaços de galhos, e se sentiu mais forte, atraente, apesar de um de seus dedos estarem cumprimentando o solo pela rasgadura do lado esquerdo do papelão que tentava ser chamado de sapato, salto, tamanco, o que quer fosse menos papelão. Ela apenas largou um sorrisinho de canto de boca com a situação, porque Aquela Manhã! Aquela Manhã era diferente, era especial. A saia de jeans quase um trapo de enxugar chão de banheiro, rasgada, velha, parecia suja, mas ela havia lavado na noite anterior, “o que tem isso haver?” pensou ela, “as garotas da minha classe usam saias e calças rasgadas, e manchadas, e todos os garotos reparam nelas, porque comigo seria diferente? Estou bonita hoje, estou usando uma saia rasgada!” exclamou sussurrando para si mesma, e se sentiu contente com isso. Passou uma mistura de capim-cidreira com álcool de cozinha e pedacinhos de sabonete em seu pescoço, punhos e um pouquinho na sua tralha, o que ela chamava de roupa, chamava de “roupas de sair”, que somente em ocasiões especiais, onde deveria estar visivelmente apresentável, teria permissão para usar. Aquela Manhã era uma ocasião importante, seria o dia em que tudo que acontecesse mudaria a sua vida para sempre, mataria a solidão e a tristeza de seu coração de brinquedo para toda a sua vida, a Garota acreditava na realização de seus sonhos: uma vida de novela, onde depois de sofrer tanto, teria o seu príncipe sob a janela de seu quarto atirando pedrinhas e a chamando para fugir até Bem Longe, onde realizaria todos os seus desejos, ter uma casa grande, com bastante comida na geladeira, com um merecido café-da-manhã de uma mesa farta de frutas, pães de todos os sabores, mel, sucos de mistura de cores estranhas, queijo, mortadela e requeijão – que ela nunca teve a oportunidade de provar, mas sonhava toda vez em lambuzar um pão inteirinho daquele queijo, só sabia que era queijo porque um dia parou para analisar a palavra “requeijão”, cremoso, e a sua barriga uivava só de imaginar aquele potinho cheio chorando requeijão sobre um pão bem fresquinho e quente. “Ah” ela fazia. E sonhava mais, com o seu primeiro beijo, apaixonante, bem quente e caloroso, intenso e bem demorado que guardou apenas para o seu futuro príncipe-marido. E Naquela Manhã, ela tinha a certeza, havia encontrado o tal. Por isso Aquela Manhã era tão especial, tão bonita, tão cheia de vida e tão cheirosa que andar até escola não seria mais um dia de rotina, seria a caminhada para o encontro com o seu amor, driblando todas aquelas poças de água suja e tomando cuidado para não quebrar o galho do seu papelão nos barrancos hostis do morro. Caminhou muito, e caminhou mais ainda, e quando já estava cansada de caminhar, ela já enxergava a sua escola. E isto a animou para dá mais uma pernada até chegar lá, onde encontraria aquele Garoto, o justo merecedor de tanto capricho na maquiagem e na escolha de sua roupa, sendo franco, nem foi tão difícil assim, quase não tem roupa, oras.
A alegria incontrolável de estar apaixonada sem mesmo saber algo da vida era tão grande que o sorriso rasgava, dilacerava o seu rosto transparente, quase saltava de sua boca, menos ressecada pela maravilhosa idéia da gotinha de sangue. Passou pelo portão da entrada da sua escola como se entrasse num palco de um grande espetáculo onde seria a estreante da peça. Feliz, ela desejou bom dia a todos que encontrava pelo caminho, mesmo nem conhecendo e recebendo uma facada com o olhar como resposta, continuava a cantarolar: “bom dia!” “que lindo dia não?” “como vai?” “bom dia professor” “BOM DIA!”. E quanto mais ela se aproximava da sua sala, mais o nervosismo gritava dentro de si: “ele vai me achar linda, ele vai olhar pra mim, ele vai sentir o meu perfume que eu mesma fiz, porque hoje é um dia especial!”.
Como se diz mesmo? “O mundo caiu”... Como é isso? Sentir ser engolido por um abismo sem um fim que dê para enxergar? Sentir morrer? Mas como é morrer? Talvez a Garota saiba, ou soube, quando viu o seu Garoto beijando a Mocinha Popular sentada em seu colo, abraçados, rindo, felizes. Ela soube o que é ter o seu mundo caindo, sentiu ser engolida por um abismo sem um fim que desse para enxergar, teve aquele algo que ela sentiu na manhã que despertou escapando pelos seus olhinhos verdinhos. Mas ela não fugiu do local, apenas encorajou-se e andou desfilando pela sala, em direção a sua mesa de estudo, dando toda a volta possível com a intenção de passar pelo seu Garoto, e olhou para ele como se dissesse: “eu te amaria para sempre, eu te beijaria para sempre, eu seria somente sua para sempre, e você preferiu esta que será de todos até o fim do colegial”. E o casal largou uma gargalhada para a Garota: “o que é isso? Você bebeu e confundiu as suas roupas com o pano de chão do banheiro?” “e esses papelões? Você mesma quem fez?” “seus lábios estão sangrando sabia?”. Todos na sala riram, qualquer coisa que um garoto ou uma mocinha popular naquela escola dizia, era motivo de risadas, porque eles eram divertidos, descolados, palhaços, faziam coisas arriscadas que os outros não fariam. Bebiam, fumavam, eram os maiorais da turma. Ela não, apenas uma garota pobre e seca, que conseguiu estar em meio a tantos filhos de pais milionários porque ganhou uma bolsa de estudos por ter obtido a melhor nota na sua escola de gente de seu nível social, por ter sido considerada Garota Prodígio pelos professores da escola dos meninos filhos de pais milionários. Ela era nada comparada a eles, eles eram bem vestidos, bem arrumados, com dinheiro, cheios de brinquedos que precisam de pilhas para funcionar, com um quarto só seu, e outras milhares de coisas que ela não tinha e não era.
Andou, após do término da aula, pelo bairro inteiro, estava longe de casa, porque ela morava num morro e estudava numa escola de um bairro da alta-sociedade bem distante de lá, tanto quanto céu da terra. E naquele dia em especial, ou que foi especial, decidiu entender o que era vestir-se para ser bonita de verdade, andou e andou até perder a noção do horário, quando notou que já não tinha mais nenhuma loja aberta, em meio a um deserto de multidão de poeiras e brisas tristes, ela notou que estava só. E decidiu voltar para a sua casa, quando, inesperadamente, aconteceu o que ela jamais havia sonhado ou cogitado na sua cabecinha de menina superdotada, viu o seu Garoto rindo bem alto na pracinha bem de frente a ela, ele segurava um cigarro com os seus dedos e com os da outra mão uma garrafa de cerveja, rindo bem alto mesmo. De repente o olhar do Garoto atingiu os seus e assustou de uma forma que a deixou paralisada. Por um curto tempo os amigos do Garoto, que já haviam notado a presença da Garota, cochichavam em seus ouvidos, e quando pararam, o Garoto levantou um de seus braços e acenou como se a chamasse para juntar-se a eles. E ela, nem um pouco besta, ou totalmente lesada com o encanto pelo rapaz, o fez. Depois de um bom tempo, ela estava feliz, bebeu a cerveja da garrafa cuja boca estava no do Garoto de seus sonhos, fumou e tossiu o cigarro que foi tragado por ele também. Ela estava muito contente, pois havia beijado indiretamente o seu Amor, “mais um pouco e eu consigo encostar a minha boca na dele” imaginou. E com o tempo alegrou-se mais ainda, agora ela estava rindo bem alto, bem alto mesmo, com eles, o Garoto e seus amigos. Já todos quase sem consciência, partiram para uma brincadeira sem muita graça para ela, mas que para eles seria uma daquelas que jamais iriam se esquecer, e não iriam mesmo. Passavam as mãos na Garota, tocavam em suas partes e riam, sem vergonha, bem baixinho, e o Garoto também, ela não gostava daquilo, mas o seu amor estava a tocando, então, nem ligava para que os outros fizessem com ela. Mas a brincadeira tomou sua intensidade e foragiu do sossego, ela não podia controlá-los, ela já não tinha força por causa daqueles beijos indiretos no seu Garoto. E mais sucedia, até eles a deixarem completamente sem a sua tralha de limpar banheiro e quebrarem o galho do seu papelão que tanto teve cautela. Ela estava triste, perdida, nada ali era nítido e por coincidência nada do que ela esperava. E por desespero, sentindo uma dor horrível de parecer estar sendo cortada, mesmo que por cima de seu corpo o seu Amor estivesse fazendo uma feição de prazer, começou a se agitar, e ela gritou, gritou muito alto, até sentir sua garganta rasgar. E provando de uma estranha sensação do seu Garoto estar por dentro de si, ela abriu os seus olhos e viu um, dos garotos, levantar e simultaneamente derrubar com bastante força uma pedra no seu rosto transparente e seco. Quase não deu para tirar a certeza se era realmente uma pedra, só soube da melhor forma que era algo sólido e pesado, logo, uma pedra.
Os garotos se divertiram bastante naquela noite, a não ser por um detalhe que os assustavam, o preocupante corpo da Garota imóvel no chão daquele fundo da praça deserta. Eles, mesmo sendo populares, sabiam que assim que amanhecesse alguém encontraria a Garota imóvel e assim chamariam a polícia, e incrivelmente sabiam também que descobririam que foram eles que a abandonaram ali, porque eles deixaram vários pedacinhos de si dentro dela, fora dela, e na boca dela. Os garotos solucionaram o problema após avistarem uma garrafa de aguardente que sobrou mesmo depois de tanto beberem, e juntos, mesmo sendo populares, pensaram. E esvaziaram a garrafa sobre o corpo da Garota, ateando fogo na bebida com o isqueiro de um deles, e correram, correram muito medonhos, desesperados por escutarem a garota gritando depois de darem bebida com fogo a ela.
A garota vive feliz hoje, porque hoje, apesar do rádio noticiando as mesmas notícias de sempre, ela estava contente por saber dos seus irmãos, já adultos, vivendo bem cada um em sua casa. E ver a sua mesa farta de frutas posta sobre a mesa, junto com os sucos de cores estranhas e pães de vários tipos, e um desses em suas mãos encharcado de requeijão. E nem hoje o dia nublado e frio escapou de ser admirado por ela, que costumava sentar-se em uma das várias janelas da sua grande casa. Hoje é um dia especial, hoje é um dia de, mais uma vez, ficar bonita, caprichar na maquiagem para cobrir o seu rosto deformado pelas queimaduras, e vestir uma roupa bem cheia para cobrir todo o seu corpo deformado pelas queimaduras e ir buscar o Garoto dos seus sonhos na prisão, para perdoá-lo e cobrir todo o seu coração de brinquedo deformado pelas queimaduras. Esse dia foi o mais feliz de toda a sua vida.

PR