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06 maio 2010

O Naipe Desgraçado

Ao que o tempero de um corpo se mistura a lírica alma de um homem, nasce a paixão. Que morra caquética a tristeza que nunca desata da garganta, a febre que sufoca o coração de um amante não amado. A dor e o pesado vazio que manifestam no silêncio de um pesadelo careado com a mágoa e a raiva. Alimentado com o ódio e o sangue do fálico sexo.
Sangra, sangra sofredor, vítima do amor. Sofra, sofra e morra pelos prantos que não nasceram, das agulhas que não te curaram, pelo clamor que nunca foi respondido. Grite, rasgue a garganta com o nó, asfixie o coração com a febre, derreta teus olhos sobre o espírito maldito que atreveu criar o amor.
- amor, amor e ódio, trágico conto erótico.
Nesse teu coração há um Rei, desesperado e aflito, com sua plebe massacrada, com a sua coroa quebrada e sua Copa despedaçada. O amor destrói, o amor constrói. Ele erra, corrige, erra e aprende. Veja, o amor é o teu coração, não quem tu amas. Mergulhe, embebeda-se nesse sentimento que não explica o bem, mas concretiza o mal.
O amor é você mesmo.

PR Lima

07 dezembro 2009

Cemitério de Formigas

Olhe só a muda reza.
A reza do mundo, não a da doença.
Eles querem que deste, a dor prevaleça.
Não, não os impeça.

Os pequeninos, olhe como choram.
De fome, de desespero, de visões despidas.
Apenas a morte, em cada pressa eles montam
Sob um por um, seus corpos, suas órbitas.

-o que pretende, pobre criança?
-criar um novo mundo, minha senhora.
-o que houve com este que criaste com tanta esperança?
-afoguei-o em dilúvio, meu dilúvio, disto que nasce quando entristeço.
-e por que entristeceste?
-do barro, da costela, criei a traição, a dor e as espinhas nas rosas.
-que fim levou o velho mundo?
-transformei-o em cemitério de lástimas, enterrada, lá está, a minha angústia.
-e de que maneira irás criar o novo mundo, sofrido criador?
-ainda não sei, mas sei que desta vez levará mais que sete dias.

PR Lima

Ando sumido demais por esses tempos, e também gosto muito de todo mundo que me segue aqui no Blogger, a fim de não perder o contato com muitos, queria que me adicionassem no messenger: nishiwaki@ymail.com. Abraços.

13 outubro 2009

Com Licença

A cada sentimento em mim expresso, há um Eu distinto deste de agora, daquele que virá e também daquele que faleceu há poucos instantes. Todos os dias eu repito os mesmos gestos: nasço na manhã calada de passos de homens e mulheres; cresço um pouco por volta da tarde, amadureço no belisco da noite sobre o sol salgado, adoeço com as estrelas e finalmente morro fálico sobre a lua cheia. Cala-se na bêbada madrugada, meu perfume velho.
Na pequena fisgada do incenso, que por graça ainda incendeia meu passo aos céus, confraternizo a minha vida, o meu martírio e minha órbita. Brindo o vinho, o sangue e os ossos. Da frágil felicidade entorpecida e folgada que vela meus prantos, abençoa, ela, o falecer do pouco da minha criança.
Eu morro sem deixar cartas, sobra apenas a minha silhueta indagada pelos meus fantasmas, estes, deste Eu que já irá partir.
Peço licença, daqui a pouco renasço e volto para os teus braços.

PR Lima

08 outubro 2009

sem título

Num dia dourado irei acordar
E quebrando as grades da janela,
As mãos macias do sol irão me enxugar
De todos os sonhos que me impuseram a decorar com os meus sorrisos.

Um dia irei me libertar
E pela porta de um quarto morno
Se quer uma mágoa irá atravessar
De um presente não vivido, manter-me-ei morto.

Um dia poderei voar, com asas que não as tenho, ao eterno
Para o refúgio sob uma nuvem: de um garoto vaziar a vida
Ao vilarejo em que as minhas feras adormecem
Calando os seus cantos no canto da minha ferida.

Com os pés, feito lençol, abraçar várias areias
Constranger o árduo, assentar a fertilidade em minhas mãos.
O ventre dolo desse calo, marcado estará em minhas veias.
Culpando a minha cegueira, resguardando a minha mudez

Regará então, o louvor virgem
Foliando a minha partida com pétalas de prantos.
Ao nublado som de meus passos
Deixarei apenas o meu entardecer à bocarra das madrugadas.

Ao vento, largarei todas as minhas rezas
Ao delírio, à loucura, à incerteza forjarei meu destino
Crente, a um belo encontro com os meus ossos.

05 outubro 2009

O segundo quarto.

Dois sabores degustados sobre o meu paladar condensavam dentre a minha boca. Três suores escorriam em passeio pelos corpos dançando em meio ao lençol bagunçado, forjado do calor que nem mesmo as bebidas sujas refrescavam, minha mente amolecia e derretia nas mãos de dois profanos. Ali se contava mais uma fábula, ali se desencadeava mais um conto vermelho e obscuro, trajado de desejos insanos a sobremesas recheada de pecados, enlouquecidos pela excitação, indagado fluido de sonolentos gemidos, ateando mãos em minha chama. A densa mistura de tristeza e de paixão extasiava o meu controle. Uma musica macia e preguiçosa soava quando todo o corpo foi perdendo força, quando descobri o caroável mel de dois sexos.
Então, a fumaça do cigarro asfixiava o ar, as roupas amarrotadas continuavam mortas jogadas ao chão cru. Eu nu, debruçava perdido entre dois rapazes, queimando a minha pele com o fogo que ainda ardia naquela cama encharcada de segredos. Não me recordo do número do quarto, quais horas se passaram e nem mesmo a cor das paredes, sei que algo de ruim em mim foi esquecido lá, sobre um dos travesseiros, e que no segundo quarto daquela madrugada, se decidiu em mim um amor que duvidei ter nascido há algum tempo. A loucura pela vida me cansa, mas ultimamente ando sobrevivendo por conta daquele olhar embriagado de doçura.
Adultério tem a delicadeza de uma rosa, fragrância cigana e sabor de vício.

27 julho 2009

Alterações

Não existem mais as flores do passado. Restou o entulho de lembranças.

O que sobrou de uma longa temporada de viagens foi apenas o resultado. Resultado, este, que hoje esculpe quem eu sou, irrefutavelmente, mais tarde um resíduo há de plantar neste chão: aquele quem eu serei, aquele quem colherá. Temo neste futuro não ter mais coração, temo enquanto me permanecer vivo, perder aos poucos a capacidade de rezar por boas vindas, afrontar as alegrias, despejar pela garganta o clamor pela vida. Por instantes de um dia completo, sinto uma tremenda carência que não há neste ou em outro corpo uma cura saciável. Perfumes estranhos, odor das marcas que ficaram, a degustação pecaminosa que restou, tudo me incha, entretanto, apenas me inflamam e depois se esvaziam, sobrevivendo apenas as minhas cifras. Que contanto, me guiam. E vou mergulhando em outra viagem. Basta a pauta para louvar a loucura.
Em cada passo semeio rosas, brancas e também as vermelhas, para ser seguido pelos meus atos, não pelos meus fatos. A quem me segue apenas um aviso: moro em um poço. Um poço de cores inexistentes, de sonoridades fluentes dos aromas intangíveis, sabores que lembram nuvens ensopadas com a luz do sol. Descanso em meio à guerra, numa pequena paz reluzida nos olhares de quem roga esperança, na alma do soldado crente a realizar um sorriso de uma criança, numa face atropelada pela tristeza. Alimento-me de tempestades, porque creio no caos supracitado pela paz, rezo a cura para a contundência da amargura.
Sou feito de leveza, cansaço, ferida e ausência. Sou cura para ombros, sou a incisão nos pulsos e também as lágrimas de um pranto. Posso ser do conforto à fadiga, da calma à ansiedade, posso ser o que teu corpo requer. Porém, a certeza que tenho, é a de que sou inundável para a tua respiração, afogo e mato.
Meu amor é completo, seguro e ateu. Minhas sensações são curtas e desprezadas, afixas no momento em que apartam de seus ventres. Meus cantos ficam no momento em que acontecem. Sou de pouco período, sou de mares volumosos. Nasço e morro poucas vezes, mas quando morro é no êxtase, e quando nasço, é na paixão. Minha alma permanece em tudo que é inquieto.
Minha fidelidade é ao ódio, que abençoado por tanta pureza e força, colhe o amor da mais real honra. É o sentimento que jamais injuriará.
Sou tudo, tudo que não possuo.

PR

14 julho 2009

O mais belo sonho

Às margens de um pesadelo, afastei-me, forçando o despertar com o rosto sobre o travesseiro enxugando o desespero. Não eram atos, naquele sonho, eram sentidos: vários deles congestionados e bagunçados, interpolando, oscilando entre a lucidez e a loucura, mantendo-me recuado no canto da fadiga. Não era medo que me atormentava, era a sensação de mastigar cascas de ovo, como se numa bocarra, entranhasse os dentes no próprio coração desidratado pela mágoa, seco, pálido e feito de areia. Ao levantar me vejo recepcionado por um sádico silêncio forjado pelas paredes e, mais uma vez, encontrei-me ausente de qualquer amparo.
O tal sonho:
O meu mar era feito de pedras, escombros de pássaros mortos, navegava sobre um corpo almejado pelo sucinto desejo da inexistência. Afrontando os vestígios de martírios, deslizava entre larvas e moscas, zurzindo a respiração. Estreitando a visão às lentas, um estertor me causava embriaguez. Assistia, voando sobre meu cadáver, a um anjo negro de asado vermelho café, sacudindo pelo pairar um perfume ungido pelos desgraçados. Intangível pela narina, tangível pela pele: queimando a nesga dos dedos, germinando na boca sabores denso, estremecido e nauseativo, numa expectativa contundente ao qual se refere o aluir da minha sobrevivência, eu me perdia.
Não era morrer, era transformar-se.
Não era decompor, era sublimar-se.

PR

14 maio 2009

Carência e Sabedoria

Loucura me liberta, me isenta de dor, amor e rancor. A dor me desperta, dos sonhos, dos desejos e daquele amor. O amor me tranqüiliza, faz-me ignorante e pétalas. O rancor me leva a loucura.
São circuncisões paralelas, são tudo que não existe, são tronos que me engrandece, objetivos e castelinhos, de mormaços aos trópicos de cânceres que em mim só consiste em leite franzino.
Eu me mutilo, física e psiquicamente, dando às minhas quimeras o sangue que escorre pelos meus segredos, lento, manto dos meus prantos. É êxtase para os meus fantasmas, aqueles que insistem em me lembrar de olhar para o penhasco. E desabo, caio, afundo, morro e inexisto.
Loucura me liberta, a dor me desperta, o rancor me alucina e o amor me resguarda de ser pior a cada dia.
Os dias são, pessoalmente, insuportáveis. Calo mas não saro, sopro e não vazo. Ponteiro parado, o suor dançando, reluz incidente clarão que se quer percebi despertar.
Ando, levado por um vicio: a loucura me fascina.


PR

22 abril 2009

Lástimas


(obs.: material
erótico)

Os lábios de Eduardo costumavam ter sabores diversos, tinha um rosto delicado demais para um menino e o seu olhar verde-acastanhado costumava deixar Fernando sem reação, e, este mesmo olhar fixou no rosto afilado dele, quando o carro estacionou em frente a casa com as luzes apagadas – exceto uma que suspirava um clima de bossa. Ao mesmo tempo que depressa e extremamente lento, Eduardo beijou Fernando silenciando todas as reticências que pairavam pelos ares. Suas mãos navegavam sobre as ondas do corpo de Fernando e exploravam os íntimos erógenos, a língua de Eduardo lascivamente derretia na orelha e deslizava por todo o pescoço, nuca e ombro, enquanto as mãos chegavam entre as coxas deixando Fernando em um descontrole sublime. Trémulo, o respingo da voz de Eduardo tapou após abrir o zíper da bermuda, e Fernando suspirava, afogava, eriçando seus sentidos. Aos poucos Eduardo conhecia melhor o sabor mais tímido e oculto, febril e adocicado de Fernando que fulminou a resistência.
Eduardo, gruindo um sorriso no canto da boca, hesitou: quem diria que eu me divertiria mais na despedida do nosso encontro. Podemos nos encontrar outra vez?
Com uma voz de reluto, Fernando respondeu: na próxima vez, tenho que me lembrar de trazer lenço...
- e isso quer dizer que nos encontraremos outra vez? Perguntou Eduardo.
Calado, Fernando apenas inflamou um sano olhar de ingénuo, saiu do carro e caminhou em direção ao portão, largou um aceno de mão e condensou sua silhueta em meio à luz embriagada da frente de sua casa.

PR Lima

19 abril 2009

Dois em um

resolvi publicar duas postagens de uma só vez. :) já que eu sei que ninguém vai fazer questão de ler tanto. resolvi postar duas em uma, para facilitar a leitura de quem lê e se dá o trabalho de comentar, e para estes, obrigado pela paciência e pela fidelidade. :*
Em Paralelo

Como se diz na matemática, dois segmentos em paralelo jamais se encontram. As mentes humanas são vários segmentos em paralelo.

[argumento um] – às 00h12min AM (quinta-feira, 16 de abril)
Eu acredito numa vida corroída, onde planos são apenas cartas Tarot viradas sobre uma mesa: podem ou não vir a tona. Onde seguir sempre seus próprios princípios, somente, é acreditar que a terra ainda é plana: sem ter uma mente aberta, você acaba pensando que caiu num abismo ao desrespeitar-los. A vida não é só uma, são várias, logo, também, são várias doutrinas e várias regras, acreditar que elas sempre vão reagir de acordo com as suas lógicas e girar sempre em torno de uma única crença é ignorância, é querer ser só – sempre uma regra vai contrariar a outra, sempre um princípio vai anular uma ordem, porque não aceitar várias idéias e deixar por vezes a própria para entender outro preceito? É preciso sempre algo Novo para girar.

[argumento dois] – às 04h54min AM
Em algumas espécies que ocorre entre os anfíbios, existem os machos que podem mudar de sexo durante todo o seu ciclo vital para manter a geração de sua espécie.
Antes de receber quaisquer classificações, todo corpo constituído de cromossomos, células e outras coisas mais, é descendente de uma só origem. Então o que pode garantir que tudo que vemos sobre a terra e precocemente determinamos como normais ou anormais, de fato é o que julgamos? Não existem características fixas para algo ser classificado como anormal ou normal. Normal é contrariar, sobre tudo, normal é ser anormal. Quem vive de acordo com a sua anormalidade, loucura pode-se dizer, e usufrui do respeito pela loucura dos outros é quem é vivo de verdade. Loucura é um dom que para poucos nessa vida foi concebido. São coisas que devem ser priorizadas na vida. Além do mais, o que importa na vida mesmo é a procriação, pois o que difere uma espécie de outra, é o que ela gera: alegria, amor, rancor, etc. É só o que vai importar no final.

[argumento três] – às 13h27min PM
Em relação ao amor, do qual não me canso em discursar, tomei em conta de que acredito nas formas em que ele pode se manifestar, tais como no ardor do ódio, no doce enjoativo do rancor, na clareira decepção e nos sons da solidão. Ao longo de alguns meses que se resumem em alguns instantes, aprendi que o amor verdadeiro nunca se esgota, apenas insensibiliza. Pode ser despertado com o murmuro de um grilo.

[argumento quatro] – às 3h19min PM (sexta-feira, 18 de abril)
Sobre uma pequena felicidade que inchou nos meus lábios.
Porque sempre esta ‘felicidade’ resolve despertar em mim logo quando estou à beira de me adaptar com um estado insuficiente?
É ridículo, mas sou como uma mulher gorda: come tudo que vê pela frente apenas com o impulso de satisfazer a falta de algo que ela desconhece, ou se é apenas uma compulsão, já eu, inconscientemente procuro algo que satisfaça a minha necessidade de felicidade diária. A mulher gorda só vai emagrecer quando descobrir o que pode dar tanto prazer em si quanto comer, e se caso exista a falta de algo, o que poderia recompensar essa carência. Quanto a mim, acho que só vou aprender a ter controle quando, assim como a gorda, ter consciência do quanto o excesso de felicidade na minha vida causa conflitos emocionais. Eu já sou feliz, não preciso de mais felicidade na minha vida. Assim como tanta coisa na vida a felicidade em excesso também pode ser nociva, ela pode anestesiar outros sentidos que nos são de extrema importância.
Felicidade e tristeza, ambas são essenciais para a vida: uma te dar prazer e conforto, a outra, te desperta e te trás de volta ao chão.

PR Lima


Saudades

Ah que saudades. Que saudades eu sinto de amar, que saudade sinto de me comportar feito criança numa cama, e como sinto falta de ser de alguém, saudade de sentir saudades. Como queria ser paquerado e como queria te encantar outra vez, meu Deus, como tudo aquilo era tão lindo.
E os intensos suspiros no dia dos namorados, aquilo tudo era muito puro e saudável, como era lindo te ver sorrindo e acompanhar a tua felicidade. Como era maravilhoso te fazer apaixonado e eu ser a causa dessa paixão, como era gostoso aquele cheirinho do teu cabelo, a maciez da tua pele quando tu deitavas em mim. São tantas coisas que juntos realizamos. São tantas recordações que de nossos sentimentos foram gerados.
Quando me apaixonei pela primeira vez por ti, foi quando senti uma explosão de bilhares lírios, jasmins, lavandas e margaridas florescendo dentro de mim tudo ao mesmo tempo, quando escutei o bater de asas de um beija-flor, bem lento, bem calmo e um som mudo que só os olhos podiam escutar. Como era incrível te desejar, como era uma conquista da paz te amar, contigo eu era feliz, eu era radiante, eu era bonito e inteligente, eu era grande.
Como era bom ser inocente, porque sim, somos inocentes indagações quando estamos apaixonados. Tua respiração ainda corre dentro de mim, meu amor ainda desperta quando te encontro. Ainda me torno um bobo quando escuto a tua voz. Tu ainda és o meu maior amor do mundo.
Te amo como se nunca tivesse amado antes e tivesse sede disso, sou viciado e louco por ti.

PR Lima

31 março 2009

Preâmbulo de um Suicídio


Capítulo UmO Prefácio do Preâmbulo

Em uma cadeira de ferro de aparente ferrugem que dava sede, Paulo ressoou algumas lágrimas, lágrimas que ousou pensar no passado que jamais tornaria a plantar em seu rosto, aquela mesma contração nos lábios, o mesmo tremer das bochechas e as mesmas dores no queixo do antes-de-chorar. Clamou várias vezes por ajuda, mas bem mais parecia gritar em um sonho onde ninguém entendia a sua língua e nem menos tinha voz. Gritava dentro de si de uma forma a sufocar o seu pulmão, como quando se tenta pronunciar alguma palavra e a ronquidão impede a vibração das cordas vocais e a passagem de ar. O que estava prestes a ocorrer era magnífico. Paulo recordava da experiência nas fracassadas tentativas de suicídio no passado, GN havia concebido o valor que ele necessitava tanto em sentir, havia lhe dado a clemência do bem estar em viver, mas nos últimos trinta e alguns dias, o mesmo que lhe ofertou o sabor pela vida, tomou de suas mãos o que tanto valorizava e acredita ser pela eternidade. Freqüentemente Paulo meditava sem intenção sobre os planos que construiu nos berços de GN, sobre o castelo que com cuidado arquitetou nas mãos dele, almejos que no decorrer da sua relação com o mesmo tornavam-se maiores e engordavam alimentados com as felicitações que GN lhe causava. E quando pensou estar correndo na direção certa, perdeu o equilíbrio tropeçando num galho de fissura esplendida chamada Decepção. Tudo havia desmoronado em sua frente, e um pouco mais para baixo, todo seu chão tornou-se sal e despertou a dor das incisões nos pés que, de tanto andar em nuvens, havia esquecido que ainda estavam ali. Toda aquela tristeza, mágoa e ódio que agora era a prova crua de um temor que o assombrava há algumas temporadas, aquele passado de boemias e cigarros, apenas havia adormecido. E agora, estava de volta, presente nos seus pequenos olhinhos tristes e avermelhados para torná-lo outra vez aquele garoto que fechou as janelas, trancou as portas e partiu seus pulsos em dois. Paulo dali a pouco, estaria se lançando em um “O” de um fio de mouse velho amarrado num pedaço de madeira que sustentava o telhado de sua casa. Paulo, dali a pouco, estria frio e finalmente pararia de chorar – o que ele odiava por sempre logo após causar dor de cabeça insuportável.

28 março 2009

Preâmbulo de um Suicídio

Prefácio

Houve três ligações que Paulo não quis atender. Houve restos de biscoitos e meio copo de leite que deixou sobre a mesa do computador, num quarto empoeirado. Respondeu seus recados num site de relacionamentos, atualizou sua página na internet. Quietou por alguns instantes.
Houve duas ligações seguintes que Paulo não pôde atender. Restou ainda o leite e o biscoito sobre a mesa. Paulo não responderia mais seus recados, nunca mais atualizaria a sua página na internet. Restou também o seu corpo frio e os últimos suspiros que ainda dançavam pelo ar do seu quarto. O cigarro morreu quando saltou das mãos de Paulo e mergulhou em seu sangue, que rastejava decorando o piso, deixando um lindo efeito que espelhava o teto.
Houve um amor que Paulo não quis perder. Antes de toda aquela febre, desligou uma ligação com GN, não houve carta de despedida, não houve ameaças e muito menos força, que tanto tinha quando junto a ele. Paulo tremia a sua voz ao telefone, falava absurdos, barbaridades em tons de desespero e sarcasticamente ria de suas mágoas causadas. Suas tristezas disseminavam pelo seu corpo, deixando-o fraco, sem força até mesmo para se manter em pé ao lado do gancho do telefone. Mais tarde, a prática do pecado. Bastou uma faca de cozinha e uma garganta.

Capítulo Um

Algum dia continua, se o autor sobreviver.


Que minhas palavras diluam nos teus olhos lentamente. Meças o meu tamanho quando eu estiver ao teu lado, se assustarás com a minha grandeza.

24 março 2009

A Dita cuja, Felicidade

Antes de tudo, à GN: Foi difícil ficar sem escutar a tua voz por hoje, e não consigo parar de me arrepender em não ter deixado a minha mão escapar até o telefone, em não ter deixado a minha voz manifestar e te dizer que eu te... – São pequenos parágrafos de um grande amor que dedico a ti, tudo que sou capaz de criar em belas palavras é por causa tua.

Penso com freqüência, desta vez, sobre felicidade, não mais sobre um sentimento estranho que teimo pronunciar em ser amor. Existem em mim vários conceitos e definições para a felicidade, uma delas é esta que irei resumir no próximo parágrafo.
Respostas não me faltam à pergunta: “felicidade?”. Uma delas diz que a felicidade é tudo que posso sentir, seja do amor à alegria – não digo "do amor ao ódio" porque sinceramente vejo poucas, ou nem uma, diferença entre eles. Existe um tiquinho de felicidade em tudo que eu sinto durante um dia, seja alegria, tristeza, solidão, angustia, etc. Veja bem, pense no quanto seria doloroso conseguir sentir nada, garanto que, por exemplo, se você não tivesse olfato e por uma sorte, do fator destino, conseguisse um tratamento que curaria a sua doença, após a alta o primeiro odor que sentiria depois de tanto tempo sem o olfato, seria um perfume maravilhoso para você. Serve também de exemplo aquela velha lenda da humanidade sendo atacada por uma estranha epidemia de cegueira branca, no final, todos alimentavam seus olhos com as ruas rujas e um “o que aconteceu aqui?” felizes da vida. Costumo dizer que me imaginar sem sentidos me faz sentir uma dormência seca e agonizante, um silêncio que, presumo eu, seria doloroso demais. Pode ser contraditória, mas ser feliz é ter em suas mãos todos os seus motivos que alimentam a tristeza e a raiva (depressão na maioria das vezes) e saber manipular-la. “Por que se fala tanto sobre a felicidade?”, “por que se têm tantas explicações para ela?”, talvez para cada um dos casos anteriores, a resposta seria: “porque para se viver a base um alimento, precisa primeiro analisar e estudar o mesmo e suas respectivas reações no seu organismo, e assim, passar a incluir-lo na sua dieta para uma vida saudável, é o mesmo com a felicidade”. Acredito que apesar dos meus problemas, eu sou feliz. Porque eu tenho uma cama e uma casa onde posso dormir e lá se vai o resto do sermão de como você tem que dar valor às coisas... Não se importe tanto com as regras da maioria, apenas corra atrás e se canse de conquistar seus objetivos, oras! É do troço chamado Ser Humano ser materialista, no mínimo que seja, ou pelo menos não enxergar os seus próprios pés sobre um chão frio e duro, muitas vezes por fraqueza. Quem sabe se é isso que impedem muitos a enxergarem melhor a própria vida e, o quanto tem coisas boas acontecendo por de trás das imensas muralhas que os problemas se tornam? Enfim, eu sou feliz, tecnicamente e teoricamente falando. Ou seja, sou feliz, mas não estou feliz. Que ironia.
Já se perguntaram por que aquelas crianças sujas de barro, barrigudas, magricelas e com aquele olhar de desespero, sabem rir com mais sinceridade e facilidade que alguém numa situação melhor (você)? Eu respondo, porque elas não sabem o que é materialismo, porque elas não possuem algum objeto valioso para exercer o materialismo e, porque elas não sabem que naquele shopping está à venda um colar de diamante para babar por cobiça. No máximo o que elas tem de mais precioso é a própria vida, mas também não se preocupam tanto com isso, por isso elas vivem tão pouco, mas morrem depois de tanto correrem e aproveitarem bastante a bolinha murcha e socada naquele terreno baldio cheio de poças de lamas de bueiro, depois de brincar tantas vezes com a mesma bonequinha careca, impossível de distinguir se é boneca ou boneco de tão surrado. Elas morrem de tanto brincar e gargalhar, crianças sempre são perfeitos exemplos de como ser feliz, não acham?

Morra de tanto viver e amar, e isso será ter sido feliz na única vida que lhe foi ofertado.

PR Lima

19 março 2009

Curtos

Eu respondi uma vez para uma conhecida: "Com a curta idade que tenho, posso afirmar que quem por mais vezes você vai odiar na vida, é também a pessoa quem mais vai amar na vida. A dor desperta a alma, e no fundo, sofrimento é bom de sentir. Sofrimento, dor, sentimento de injustiça, de incompreensão, tudo isso pesa de uma forma que voltamos a pisar no chão, então, concluo que sofrer é bom pra vida, mais que isso, é bom pra viver.”

Sei que ninguém sabe o quanto eu, você, sofre por alguém, sofrimento por amor deve ser mantido em segredo. Porque quando deixar de ser segredo, vai quebrar o maravilhoso encanto da dor que o amor causa, e por fim, tornar-se-á birra.
Sofra, ame o quanto pode, ame bastante. Qualquer dia desses, você vai deixar de confiar no amor. Você pode até continuar a acreditar na sua existência, mas se arriscar pôr mais uma vez seu coração numa fornalha, vai ser difícil.

30 janeiro 2009

A Garota Feliz


Fez-se um lindo dia naquela manhã apesar das notícias ecoando feito fumaça pela cozinha, anunciando mortes, guerras, misérias e outras coisas mais depreciativas, fez-se um lindo dia naquela manhã, exclusivamente aquela manhã. Nem mesmo o tempo cozido em nuvens escapou de ser admirado. Aquela manhã era diferente de todas as que já haviam despertado. O lanche da manhã nunca foi tão delicioso quanto o daquela manhã, mesmo sendo apenas um copo de leite, diluído em água para render mais, e um pão adormecido, e mesmo ter sobrado nada depois de tê-lo dividido com os seus irmãos. Nada estragaria aquele dia. Fez-se uma linda manhã.
A garota sentou-se diante a um espelho, um pedaço de espelho, e penteou suas ressequidas palhas douradas. A falta de um batom vermelho, somente esta cor a faria sentir-se bela, não a impediu de furar a ponta de um de seus miúdos dedos carne-osso para extrair uma difícil gota de sangue para colorir os seus lábios, quase o mesmo tom de uma folha de papel de desenhar amassado, branquinhos e mortinhos. Limpou os seus pés para estarem dignamente apresentáveis para o encontro com o salto alto velho de sua avó, tão velho que mais parecia papelão sobre dois pedaços de galhos, e se sentiu mais forte, atraente, apesar de um de seus dedos estarem cumprimentando o solo pela rasgadura do lado esquerdo do papelão que tentava ser chamado de sapato, salto, tamanco, o que quer fosse menos papelão. Ela apenas largou um sorrisinho de canto de boca com a situação, porque Aquela Manhã! Aquela Manhã era diferente, era especial. A saia de jeans quase um trapo de enxugar chão de banheiro, rasgada, velha, parecia suja, mas ela havia lavado na noite anterior, “o que tem isso haver?” pensou ela, “as garotas da minha classe usam saias e calças rasgadas, e manchadas, e todos os garotos reparam nelas, porque comigo seria diferente? Estou bonita hoje, estou usando uma saia rasgada!” exclamou sussurrando para si mesma, e se sentiu contente com isso. Passou uma mistura de capim-cidreira com álcool de cozinha e pedacinhos de sabonete em seu pescoço, punhos e um pouquinho na sua tralha, o que ela chamava de roupa, chamava de “roupas de sair”, que somente em ocasiões especiais, onde deveria estar visivelmente apresentável, teria permissão para usar. Aquela Manhã era uma ocasião importante, seria o dia em que tudo que acontecesse mudaria a sua vida para sempre, mataria a solidão e a tristeza de seu coração de brinquedo para toda a sua vida, a Garota acreditava na realização de seus sonhos: uma vida de novela, onde depois de sofrer tanto, teria o seu príncipe sob a janela de seu quarto atirando pedrinhas e a chamando para fugir até Bem Longe, onde realizaria todos os seus desejos, ter uma casa grande, com bastante comida na geladeira, com um merecido café-da-manhã de uma mesa farta de frutas, pães de todos os sabores, mel, sucos de mistura de cores estranhas, queijo, mortadela e requeijão – que ela nunca teve a oportunidade de provar, mas sonhava toda vez em lambuzar um pão inteirinho daquele queijo, só sabia que era queijo porque um dia parou para analisar a palavra “requeijão”, cremoso, e a sua barriga uivava só de imaginar aquele potinho cheio chorando requeijão sobre um pão bem fresquinho e quente. “Ah” ela fazia. E sonhava mais, com o seu primeiro beijo, apaixonante, bem quente e caloroso, intenso e bem demorado que guardou apenas para o seu futuro príncipe-marido. E Naquela Manhã, ela tinha a certeza, havia encontrado o tal. Por isso Aquela Manhã era tão especial, tão bonita, tão cheia de vida e tão cheirosa que andar até escola não seria mais um dia de rotina, seria a caminhada para o encontro com o seu amor, driblando todas aquelas poças de água suja e tomando cuidado para não quebrar o galho do seu papelão nos barrancos hostis do morro. Caminhou muito, e caminhou mais ainda, e quando já estava cansada de caminhar, ela já enxergava a sua escola. E isto a animou para dá mais uma pernada até chegar lá, onde encontraria aquele Garoto, o justo merecedor de tanto capricho na maquiagem e na escolha de sua roupa, sendo franco, nem foi tão difícil assim, quase não tem roupa, oras.
A alegria incontrolável de estar apaixonada sem mesmo saber algo da vida era tão grande que o sorriso rasgava, dilacerava o seu rosto transparente, quase saltava de sua boca, menos ressecada pela maravilhosa idéia da gotinha de sangue. Passou pelo portão da entrada da sua escola como se entrasse num palco de um grande espetáculo onde seria a estreante da peça. Feliz, ela desejou bom dia a todos que encontrava pelo caminho, mesmo nem conhecendo e recebendo uma facada com o olhar como resposta, continuava a cantarolar: “bom dia!” “que lindo dia não?” “como vai?” “bom dia professor” “BOM DIA!”. E quanto mais ela se aproximava da sua sala, mais o nervosismo gritava dentro de si: “ele vai me achar linda, ele vai olhar pra mim, ele vai sentir o meu perfume que eu mesma fiz, porque hoje é um dia especial!”.
Como se diz mesmo? “O mundo caiu”... Como é isso? Sentir ser engolido por um abismo sem um fim que dê para enxergar? Sentir morrer? Mas como é morrer? Talvez a Garota saiba, ou soube, quando viu o seu Garoto beijando a Mocinha Popular sentada em seu colo, abraçados, rindo, felizes. Ela soube o que é ter o seu mundo caindo, sentiu ser engolida por um abismo sem um fim que desse para enxergar, teve aquele algo que ela sentiu na manhã que despertou escapando pelos seus olhinhos verdinhos. Mas ela não fugiu do local, apenas encorajou-se e andou desfilando pela sala, em direção a sua mesa de estudo, dando toda a volta possível com a intenção de passar pelo seu Garoto, e olhou para ele como se dissesse: “eu te amaria para sempre, eu te beijaria para sempre, eu seria somente sua para sempre, e você preferiu esta que será de todos até o fim do colegial”. E o casal largou uma gargalhada para a Garota: “o que é isso? Você bebeu e confundiu as suas roupas com o pano de chão do banheiro?” “e esses papelões? Você mesma quem fez?” “seus lábios estão sangrando sabia?”. Todos na sala riram, qualquer coisa que um garoto ou uma mocinha popular naquela escola dizia, era motivo de risadas, porque eles eram divertidos, descolados, palhaços, faziam coisas arriscadas que os outros não fariam. Bebiam, fumavam, eram os maiorais da turma. Ela não, apenas uma garota pobre e seca, que conseguiu estar em meio a tantos filhos de pais milionários porque ganhou uma bolsa de estudos por ter obtido a melhor nota na sua escola de gente de seu nível social, por ter sido considerada Garota Prodígio pelos professores da escola dos meninos filhos de pais milionários. Ela era nada comparada a eles, eles eram bem vestidos, bem arrumados, com dinheiro, cheios de brinquedos que precisam de pilhas para funcionar, com um quarto só seu, e outras milhares de coisas que ela não tinha e não era.
Andou, após do término da aula, pelo bairro inteiro, estava longe de casa, porque ela morava num morro e estudava numa escola de um bairro da alta-sociedade bem distante de lá, tanto quanto céu da terra. E naquele dia em especial, ou que foi especial, decidiu entender o que era vestir-se para ser bonita de verdade, andou e andou até perder a noção do horário, quando notou que já não tinha mais nenhuma loja aberta, em meio a um deserto de multidão de poeiras e brisas tristes, ela notou que estava só. E decidiu voltar para a sua casa, quando, inesperadamente, aconteceu o que ela jamais havia sonhado ou cogitado na sua cabecinha de menina superdotada, viu o seu Garoto rindo bem alto na pracinha bem de frente a ela, ele segurava um cigarro com os seus dedos e com os da outra mão uma garrafa de cerveja, rindo bem alto mesmo. De repente o olhar do Garoto atingiu os seus e assustou de uma forma que a deixou paralisada. Por um curto tempo os amigos do Garoto, que já haviam notado a presença da Garota, cochichavam em seus ouvidos, e quando pararam, o Garoto levantou um de seus braços e acenou como se a chamasse para juntar-se a eles. E ela, nem um pouco besta, ou totalmente lesada com o encanto pelo rapaz, o fez. Depois de um bom tempo, ela estava feliz, bebeu a cerveja da garrafa cuja boca estava no do Garoto de seus sonhos, fumou e tossiu o cigarro que foi tragado por ele também. Ela estava muito contente, pois havia beijado indiretamente o seu Amor, “mais um pouco e eu consigo encostar a minha boca na dele” imaginou. E com o tempo alegrou-se mais ainda, agora ela estava rindo bem alto, bem alto mesmo, com eles, o Garoto e seus amigos. Já todos quase sem consciência, partiram para uma brincadeira sem muita graça para ela, mas que para eles seria uma daquelas que jamais iriam se esquecer, e não iriam mesmo. Passavam as mãos na Garota, tocavam em suas partes e riam, sem vergonha, bem baixinho, e o Garoto também, ela não gostava daquilo, mas o seu amor estava a tocando, então, nem ligava para que os outros fizessem com ela. Mas a brincadeira tomou sua intensidade e foragiu do sossego, ela não podia controlá-los, ela já não tinha força por causa daqueles beijos indiretos no seu Garoto. E mais sucedia, até eles a deixarem completamente sem a sua tralha de limpar banheiro e quebrarem o galho do seu papelão que tanto teve cautela. Ela estava triste, perdida, nada ali era nítido e por coincidência nada do que ela esperava. E por desespero, sentindo uma dor horrível de parecer estar sendo cortada, mesmo que por cima de seu corpo o seu Amor estivesse fazendo uma feição de prazer, começou a se agitar, e ela gritou, gritou muito alto, até sentir sua garganta rasgar. E provando de uma estranha sensação do seu Garoto estar por dentro de si, ela abriu os seus olhos e viu um, dos garotos, levantar e simultaneamente derrubar com bastante força uma pedra no seu rosto transparente e seco. Quase não deu para tirar a certeza se era realmente uma pedra, só soube da melhor forma que era algo sólido e pesado, logo, uma pedra.
Os garotos se divertiram bastante naquela noite, a não ser por um detalhe que os assustavam, o preocupante corpo da Garota imóvel no chão daquele fundo da praça deserta. Eles, mesmo sendo populares, sabiam que assim que amanhecesse alguém encontraria a Garota imóvel e assim chamariam a polícia, e incrivelmente sabiam também que descobririam que foram eles que a abandonaram ali, porque eles deixaram vários pedacinhos de si dentro dela, fora dela, e na boca dela. Os garotos solucionaram o problema após avistarem uma garrafa de aguardente que sobrou mesmo depois de tanto beberem, e juntos, mesmo sendo populares, pensaram. E esvaziaram a garrafa sobre o corpo da Garota, ateando fogo na bebida com o isqueiro de um deles, e correram, correram muito medonhos, desesperados por escutarem a garota gritando depois de darem bebida com fogo a ela.
A garota vive feliz hoje, porque hoje, apesar do rádio noticiando as mesmas notícias de sempre, ela estava contente por saber dos seus irmãos, já adultos, vivendo bem cada um em sua casa. E ver a sua mesa farta de frutas posta sobre a mesa, junto com os sucos de cores estranhas e pães de vários tipos, e um desses em suas mãos encharcado de requeijão. E nem hoje o dia nublado e frio escapou de ser admirado por ela, que costumava sentar-se em uma das várias janelas da sua grande casa. Hoje é um dia especial, hoje é um dia de, mais uma vez, ficar bonita, caprichar na maquiagem para cobrir o seu rosto deformado pelas queimaduras, e vestir uma roupa bem cheia para cobrir todo o seu corpo deformado pelas queimaduras e ir buscar o Garoto dos seus sonhos na prisão, para perdoá-lo e cobrir todo o seu coração de brinquedo deformado pelas queimaduras. Esse dia foi o mais feliz de toda a sua vida.

PR

Amor de verdade



Sei quando o amor é de verdade, pois não sei explicar e não conheço a sua definição. Sei apenas que ele acontece e prossegue crescendo, ou melhor, fortalecendo. Porque não existe amar de mais ou amar de menos, existe apenas a diferença no comportamento entre pessoas que sobrevivem à base desse tal: os que sabem e os que não sabem controlar a sua intensidade. Ninguém ama mais que um ama o outro, isso é ridículo (não se esqueça que o assunto em discussão é o Amor de Verdade).
Abrindo um breve parêntese...
Perdi um pouco da minha imaturidade levantando a consideração da relação entre o de hoje e o meu “Eu” do passado, mudei muito o meu conceito sobre algumas idéias, e muito da minha personalidade, sinto que hoje sou menos imaturo, sim, porque de fato nunca ninguém nessa vida foi maduro, apenas foi deixando de ser imatura com o tempo. No fundo todos têm uma “recaída” de comportamento infantil, mas enxergar infantilidade nos outros é fácil, então, os meus dedos não digitarão mais sobre.
Fechando o parêntese, pulando a linha e voltando ao assunto principal...
Quando se ama de verdade cultiva-se um algo dentro de si que não deixa morrer o amor, e é forte o suficiente que é capaz obstante de qualquer dor de destruir os sonhos. Por isso, para quem a sinceridade é a exclamação para o amor, não existe traição, mentira, decepção, mágoa e outras coisas mais, que acabe com um sentimento tão puro. Apesar de ter amado verdadeiramente uma vez na vida, vivendo isso, eu sei que não vou ter outra chance de amar, de sentir toda essa estranheza viciosa de bem-estar, em razão, não vou largar esta sorte. E eu amo com todas as minhas forças, amo intensamente, amo inconseqüentemente, amo antes de qualquer sentimento, amo apenas um homem. É realmente inexplicável o Fenômeno Amor, não existe definição, é um pecado definir o amor. Eu nem sei o que é amor de verdade, só sinto. Então desconsidere o meu audacioso “Sei quando o amor é de verdade” porque de fato, eu sei é nada. E repito, só sei que sinto.
Amor é tão forte quanto Nunca. Com experiência, sinto que não vou morrer sem abraçar uma verdadeira paixão, crua, nua, ardente, carente, cócega paixão. Só se vive uma vez, e enquanto sentir, eu não vou deixar de amar e abraçar o meu amor todos os dias.
Ponto!